Relembrando uma Ocultação de Vênus pela Lua



Relembrando uma Ocultação de Vênus pela Lua:
Vênus, a Bela da Tarde, surgindo da Lua em fino crescente,
formando um anel de noivado em ouro e prata

Janine Milward

Eu vinha viajando de Juiz de Fora a Mar de Hespanha, com os olhos colados no céu do oeste, procurando pela Lua branca e fina ainda contra o pano de fundo do céu azul quase anil de finalzinho de tarde de domingo. Achei a Lua! Porém, sem os binóculos que esquecera em casa, podia ver apenas a Selene quase transparente, um semi-arco, quase um sonho, um nadinha que não me deixava ver outra coisa dentro da paisagem sonolenta do campo bucólico com capim já verde pelas chuvas recentes e vacas vagarosas, sem pressa.

Chegando ao Sítio, fui direto para um caramanchão no alto do morro, com uma vista de 180 graus para o vale verde e ondulado pelos morros suaves das Minas Geraes. O vale mais parecia um cenário de natal antecipado, com os vagalumes fazendo as vezes de luzes esverdeadas em pisca-pisca sem fim..... ao mesmo tempo que, do brejo, podia se escutar os sapos cantando, quase berrando mesmo, a alegria de uma noite quente.

Já estava escuro e no céu haviam estrelas e mais estrelas mas eu mal conseguia segurar minha respiração ansiosa e os binóculos 10x50 apontando para a Lua que teimava em continuar caindo, quase despencando sobre as ondulações sinuosas e aveludadas do caminho do sudoeste, bem abaixo do Escorpião de cara já voltada para o chão, ainda a Selene doce passeando entre as estrelinhas simples da Balança - que antigamente, muito antigamente, era considerada as Garras do animal rastejante, que graças aos céus, não vive na abóbada do vale das redondezas, apenas na abóbada celeste.

De binóculos, a Lua parecia uma Lua Cheia quase-eclipsada.... deixando ver apenas um anelzinho tímido, meio dourado, meio prateado, ainda escondendo a Bela da Tarde, Vênus dos nossos corações amorosos. E a Terra continuava girando e a Lua continuava despencando e eu pensava comigo mesma: "será que não vai dar tempo? Será que não vai dar tempo?"

Mas deu tempo, sim, meus amigos, companheiros da viagem às estrelas. O caminho do sudoeste e o horizonte suave ainda me permitiram a surpresa de ver - a olho nú, primeiramente - e rapidamente, através dos binóculos suados - uma luz forte, inconfundível, brilhante, emocionante: era ELA, MINHA VÊNUS, nossa Vênus, que reaparecia, maravilhosa e sorridente, também cor de ouro por causa de sua proximidade com o horizonte.

Era ela, a Bela da Tarde, que surgia vindo da Lua, aparecendo como uma bola pequena e radiante de ouro e prata, parecendo que o Ourives a tinha finalmente colocado no fino anel que a Lua sugeria no céu. Era a própria imagem de um anel de ouro, com pedra de ouro! Foi realmente lindo!
Então, Vênus e Lua se despregaram, se desprenderam, se separaram.... e sumiram.

Corri morro acima, morro abaixo, procurando um lugar aonde pudesse ainda resgatar aquela imagem apaixonante, aquele palco da vida de cenário deslumbrante e de atrizes brilhantes e mudas..... mas foi em vão: elas entraram coxia adentro, desaparecendo do olhares ansiosos do público do vale: eu, meus cachorros, os vagalumes, os sapos, os grilinhos, as corujas do campo, as estrelas....

Naquele momento eu pensei que gostaria de estar num avião teco-teco, que fosse, num balão, nas asas de um pássaro noturno, somente para observar mais ainda aquela belíssima cena que apenas restou em minha retina, em minha mente, em meu coração.

Com um abraço estrelado,
janine Milward